“Um encontro entre Freud e Dalí, realmente, só poderia terminar em uma imensa histeria”, brinca Jô Soares, que completa 59 anos de trajetória artística e mergulhou no relacionamento improvável entre o pai da psicanálise e o mestre do surrealismo para dar forma a comédia “Histeria”, do autor britânico Terry Johnson. O espetáculo, escrito em 1933, marca o retorno de Jô Soares à direção teatral, após quase três anos. Abaixo você confere a entrevista com Cássio Scapin, um dos protagonistas da peça.

A peça é baseada na montagem dirigida por John Malkovich, e no texto do autor britânico Terry Johnson, podemos encontrar diferenças na montagem e no texto?

Cássio Scapin – Não poderia ser de outra forma! Ela é diferente das montagens anteriores, a encenação é diferente. existem pequenas alterações no texto porém nada estrutural. Temos a vantagem da tradução do Jô Soares, que é um homem das letras e incontestavelmente um homem de teatro, detentor de um grande conhecimento da arte de atuar e dirigir. Um elenco ótimo de comediantes, Norival Rizzo, Erica Montanheiro, Milton Levy, comediantes no sentido mais amplo da palavra, que conseguem transitar da farsa ao trama psicológico, que sem dúvida é uma característica dessa obra, uma mistura de gêneros proposta pelo autor, que foi plenamente respeitada e reforçada pela direção. Característica essa do texto que causa estranheza e desconcerto a olhares menos preparados ou mais ortodoxos. Mas basicamente é isso: o teatro sempre é uma obra mutável quando não é tratado como um produto, mas sim como um exercício artístico!

psiquê humana

“Histeria” promove um encontro entre Freud e Dalí, personagens cheios de nuances. Como foi seu processo de construção de personagem? Como é a sua relação com as obras de Dali?

Cássio Scapin – São personagens reais; mas nesse texto o autor não busca uma tragetoria linear ou biográfica dessas personalidades , são tratados com certo ton de deboche e ironia, é dado um tratamento irreverente a esses dois ícones cada qual em sua área , que historicamente se cruzam de maneira efêmera!

A peça é uma ficção inspirada em fatos reais, qual é a maior dificuldade nesse processo?

Cássio Scapin – Um grande jogo entre psicanálise e arte! Para construir um personagem sempre tento me ater ao que pede originalmente o texto! A grande dificuldade era como teatralizar um personagem que em vida já era uma alegoria de si mesmo já era “espetaculoso”, encarei o personagem como uma máscara, assisti muitos documentários sobre Dali , como ele era uma máscara de si mesmo segui esse caminho!

Dali era um freudiano fanático. Na sua opinião, psicanálise e surrealismo podem andar juntos?

Cássio Scapin – Sim, uma grande fonte para o surrealismo foi uma obra de Freud intitulada: A Interpretação dos Sonhos. No caso do Surrealismo que tenta retratar e materializar as manifestações do inconsciente elas foram totalmente confluentes! Como já disse antes são personagens reais e históricos mas não existe uma rigidez e nem uma necessidade de tratá-los com verossimilhança, o foco da discussão é outro!

cassio
Foto: Priscila Prade

A peça é uma comédia ambientada na Londres de 1938, ano que Freud se mudou para lá por insistência da família e da princesa Marie Bonaparte , fugindo do Nazismo, como é a sua relação com a história desse grande personagem ?

Cássio Scapin – Acredito que Freud já faz parte do inconsciente da era moderna. Somos mais influenciados pela sua obra do que podemos imaginar, já faz parte do inconsciente coletivo moderno; para usar o termo de um sex-aluno de Freud e depois rival, Jung!

Sou fascinado por esse período histórico e a transformação da humanidade nos períodos da primeira e da segunda guerra! Sou apaixonado por história!

Como é ser dirigido por Jô Soares?

Cássio Scapin – Essa é a segunda vez que tive o prazer, honra e oportunidade de trabalhar com este que além de um grande artista, hoje também é um querido amigo! O que dizer sobre o Jô sem cair no lugar comum? Simplesmente adorável!

Saiba mais sobre a peça: http://rotacult.com.br/2017/03/sucesso-de-publico-histeria-esta-em-cartaz-no-teatro-sesc-ginastico/

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