O Instituto Moreira Salles lança neste final de ano a publicação A forma da luz, uma caixa com cinco belos momentos da fotografia no Brasil no século XX. Concebidos a partir da coleção de fotografia do IMS, os volumes foram publicados originalmente entre 2009 e 2013, em edições fora de comércio, que agora vêm a público para celebrar o trabalho de cinco grandes fotógrafos: David Drew Zingg, Horacio Coppola, Marcel Gautherot, Maureen Bisilliat e Thomaz Farkas.
O livro Foto-gráfica, do norte-americano David Drew Zingg (1923-2000) não parte de uma pauta fixa. Produzidas nas circunstâncias mais variadas — passeios ao léu pelas ruas do Rio de Janeiro e de São Paulo ou intervalos de viagens a Brasília ou ao Mato Grosso —, as fotografias se distanciam da encomenda profissional e trazem a marca da abertura de Zingg para tudo que o acaso plantasse em seu caminho. O fotógrafo volta-se para uma certa dimensão gráfica da experiência cotidiana, que se mostra privilegiadamente a quem anda a pé: placas, letreiros, cartazes, anúncios e, é claro, fotografias, em geral de fatura precária e função prosaica.
As 20 fotografias das esculturas de Aleijadinho que integram o ensaio De perto foram produzidas pelo argentino Horacio Coppola (1906-2012) nas cidades mineiras de Congonhas do Campo, Sabará e Ouro Preto em 1945. Para o fotógrafo, Aleijadinho era um artista integral, isto é, arquiteto, escultor e “ornamentista sacro”. Coppola entendia a câmera fotográfica como um instrumento capaz de evitar as mediações do olhar antiquário ou acadêmico e, portanto, capaz de capturar “a imagem em seu ser elementar”, como declarou certa vez. Por isso seu empenho em travar contato direto com a arte do artista barroco por meio da fotografia.
Mar aberto reúne 25 fotografias realizadas por Marcel Gautherot (1910-1996) numa praia do município de Aquiraz, litoral cearense, no início da década de 1950. As imagens que integram este livro são uma amostra pequena, mas privilegiada, da obra do fotógrafo franco-brasileiro em seus anos de plena maturidade. Nas fotografias de Mar aberto, convergem diversos veios de sua obra. Do ponto de vista mais puramente formal, as imagens revelam o apuro da composição enxuta, geométrica, que o próprio autor atribuía a seus estudos de arquitetura e, em particular, a seu entusiasmo pela obra de Le Corbusier e Mies van der Rohe. Mas, aqui, esse traço não é levado às raias da abstração, como acontece em outros ensaios, como nos barcos atracados em Belém ou nas fotografias feitas durante a construção de Brasília. No Ceará, entra em jogo um segundo viés de sua formação: a partir de 1936, ainda em Paris, Gautherot trabalhou no recém-fundado Musée de l’Homme, sob a direção do etnólogo Paul Rivet, e incorporou a seu repertório pessoal a disciplina do ensaio fotográfico de corte etnográfico, marcado pelo afã de documentação integral dos meios materiais e simbólicos dos diversos grupos humanos.
As fotografias que integram a série Pele preta, realizadas há 50 anos, são um marco no percurso pessoal e artístico de Maureen Bisilliat (1931) — uma das protagonistas mais originais da fotografia brasileira na segunda metade do século XX. As fotografias deste ensaio exploram as possibilidades plásticas do corpo de uma mulher negra e de um conjunto de ex-votos (emprestados pelo amigo e colecionador Giuseppe Baccaro) fotografados na sala da casa de Maureen e, posteriormente, na casa da família da modelo, em São José do Rio Pardo, interior paulista. A série “deriva”, nas palavras da própria artista, “dos meus tempos de estudante, quando frequentava ateliês de modelo vivo, atenta à anatomia, à movimentação do corpo e à iluminação”. Ao realizar Pele preta, Maureen cruzava para sempre o umbral entre as artes plásticas tradicionais e a fotografia. Sabedora da importância do ensaio, a artista incluiu-o em sua primeira grande exposição, realizada em 1966 no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP).
Realizadas há sete décadas por um rapaz de 18 anos ou pouco mais, as fotografias reproduzidas no ensaio Em jogo, do fotógrafo Thomaz Farkas (1924-2011) guardam todo o frescor e a vibração de uma estreia feliz. Ao mesmo tempo em que revelam a inventividade formal com a qual o rapaz absorveu a lição modernista, as fotos deste ensaio já manifestam certos traços que distinguiriam o fotógrafo e acabariam por afastá-lo da linha central do Foto Cine Clube Bandeirante. Nessa primeira metade da década de 1940, Farkas já tem o olhar alerta para a atitude ou o gesto que revela, num só lance, todo um tipo humano. Lá estão o sujeito de terno e chapéu de jornal, o valentão de suspensórios e garrafão em punho, a variedade de reações no momento do gol, o menino de calças curtas que contempla o fim da festa. Lá está, crucialmente, o seu senso de humor, que capta os elementos à margem da cena principal, como a estátua olímpica que olha para longe ou os vendedores ambulantes que dão as costas para a partida. Essa conjugação de elementos diversos configura muito precocemente uma assinatura autoral. Valendo-se da gramática modernista menos como dogma e mais como campo de possibilidades, o jovem Farkas fundava para si um espaço de livre jogo de suas faculdades visuais já muito aguçadas. E, ao conjugar abstração e humor, rigor formal e disponibilidade humana, não apenas se punha a caminho de criar imagens icônicas como também dava as primeiras mostras de uma inquietação artística e pessoal que atravessaria toda a sua carreira fotográfica.
A forma da luz – Horacio Coppola, Marcel Gautherot, Maureen Bisilliat, Thomaz Farkas e David Drew Zingg
ISBN: 978-85-8346-011-4
Formato: 24 x 17 cm
Nº de páginas: 212
Preço: R$ 89,90

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