maresia Barco a seco, duas linhas temporais. No presente, Gaspar Dias, especialista nas obras do pintor Emilio Vega, morto misteriosa e precocemente. No passado, o próprio artista surge em sua personalidade marulhada. O mesmo ator interpreta ambos os protagonistas, dois atores diferentes interpretam o mesmo personagem.

Maresia tem uma desconstrução dentro da construção mas essa construção muitas vezes é feita de desconstruções. A primeira parte tem um diálogo incrível com Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami, a busca pelo original, o que se acredita ser o verdadeiro, o que é verdadeiro e o que é falso, o que se poderia mostrar é que as cópias são importantes, porque reconduzem ao original.

Essa abordagem não se dá somente na arte, é também um convite a uma autoanálise para uma melhor compreensão de si mesmo. Questões sobre o conceito de ‘originalidade’ têm sido discutidas por toda a História antes mesmo que os romanos começassem a vender cópias de artefatos egípcios de prata. Assim como Lorenzo de Médici orientava Michelangelo a esculpir a sua estátua de Cupido all’antica, podendo assim ser vendida por um preço mais alto, Angelina (Vera Holtz), a dona da galeria, responde que a gente só se mantém quando uma peça é autêntica, diante da dúvida de Gaspar Dias (Júlio Andrade) num momento em que ele, perito em arte, ainda não decidiu se um quadro é autêntico ou falso.

Maresia, como uma grande névoa, não deixa de ser também uma crítica à crítica de arte, ao crítico (acadêmico) que se acha dono de um “autor” porque o estuda há anos e se espanta ao descobrir que não era nada daquilo.

O pintor Emilio Vega é dado como morto, sai num jornal que ele, bêbado, se suicida no mesmo mar que o abrigou por tanto tempo. A partir de então, dessa morte, surge outra vida. Maresia pode ser também sobre segundas chances, sobre se dar uma segunda chance na vida através da morte. Mas a desconstrução de estereótipos ou de certezas é vivenciada de forma mais intensa pelo crítico. O pintor vive no seu mundo do seu modo, vive num barco, meio à deriva, no limiar, na maresia.

Maresia não é só um cheiro intenso na vazante, é o próprio limiar das coisas.

Saiba mais sobre o filme: https://rotacult.com.br/2016/11/maresia-de-marcos-guttman-aborda-tematica-da-arte-confira-entrevista/

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