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Overman, antítese do super-herói clássico, chega aos cinemas

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Aqueles que, como eu, são ou foram leitores de histórias em quadrinhos e de gibis de super-heróis, que ficaram ainda mais famosas aqui no Brasil por meio dos longas-metragens da DC e, principalmente, do Universo Marvel, sabem que, em tempos de grandes dificuldades, nada melhor do que um herói, alguém vestindo uma capa e com superpoderes, para tentar salvar a pátria. Só que essas são histórias fictícias. A vida real não tem nada disso, não tem um super-herói de verdade. Acontece também que, de tempos em tempos, a gente entra em uma sala de cinema para se desconectar dessa realidade às vezes tão perversa à nossa volta. E, agora, depois de tantos heróis gringos, finalmente chega aos cinemas brasileiros, o aguardado filme do cineasta Tomás Portella, que adapta os quadrinhos da cartunista Laerte Coutinho. Foram alguns anos de espera, a expectativa era grande e o resultado pode até despertar sentimentos controversos na plateia, mas agradou a este crítico.

Em primeiro lugar, devo dizer que, se vocês forem ao cinema esperando uma história de quadrinhos convencional, como os filmes do Homem-Aranha, por exemplo, há uma grande chance de se decepcionarem. Overman é a antítese do super-herói clássico. Não que ele não tenha superpoderes, pois ele tem. Não que seu universo não seja repleto de super-heróis e de super-heroínas, ou de supervilões e de supervilãs. Tem tudo isso. Overman, interpretado por Caco Ciocler, é um homem superforte, que voa e é à prova de balas, mas não tem visão de raio X. No entanto, ele é um brasileiro como outro qualquer: depressivo, desempregado, com problemas financeiros e que não se sente amado. Um dia, ele conhece Poline, uma influencer interpretada pela atriz trans Maria Lucas, e ali surge a esperança de um amor. Porém, o relacionamento não dá certo e ele volta àquela pasmaceira do dia a dia. Até que, com a eleição de um novo governador, interpretado por Otávio Müller, acaba sendo contratado para ser o super-herói oficial do Estado do Rio de Janeiro. Overman está para o Rio assim como Batman está para a cidade de Gotham City.

A partir daí, começam a aparecer outros personagens. Ele ganha uma parceira, a Mulher Cachorro, vivida por Karina Ramil, e se depara com vários supervilões, entre eles, o Maníaco Flatulento, papel do ator Caio Riscado, e Pane, interpretada pela ótima Marina Provenzzano. Todavia, Overman, esse brasileiro depressivo, com problemas financeiros e que encontra em um emprego estatal a chance de reorganizar a vida, já foi um dia vitorioso — ou pelo menos é o que todo mundo pensa —, quando derrotou um supervilão chamado Capitalista Imundo. Mas será ele que derrotou mesmo? Em tempos de fake news, por conta do clima político que aquece o nosso país, às vésperas do segundo turno da eleição presidencial, a pergunta é: será que a vitória de Overman sobre o Capitalista Imundo aconteceu do jeito que ele conta e a imprensa noticiou na época?

Uma história de super-heróis que não se desconecta em momento nenhum da realidade, até mesmo no que diz respeito ao clima eleitoral que estamos vivendo, confere um timing perfeito para a estreia deste filme. E retoma também aquela questão que levantei lá no início: se vocês forem ao cinema esperando uma obra convencional de heroísmo como as do Homem-Aranha, vão se decepcionar, porque aqui não há qualquer convencionalidade. Ainda assim, uma vez que Overman tem poderes, a lição do Tio Ben para Peter Parker pode ser aplicada aqui: “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Responsabilidade, inclusive, da própria obra para com o público. E o filme de Portella assume esse BO com muita ação e entrega uma comédia escrachada cheia de referências. A abertura de, não por acaso, lembra as aberturas dos filmes da Marvel. Já o roteiro, muito bem escrito, guarda até o final a resposta sobre o confronto passado entre Overman e o Capitalista Imundo.

Já em relação aos aspectos técnicos, há coisas muito boas. Os efeitos especiais, o trabalho de cenografia e o figurino, tudo funciona muito bem, sempre levando em conta, claro, que estamos diante de um filme de super-heróis um tanto quanto diferente. E, ainda que vocês não encontrem aqui a obra convencional com a qual estão acostumados, podem ter certeza de que, no fim, o bem sempre vence o mal. Overman não é o primeiro longa-metragem brasileiro de super-heróis. Na verdade, o histórico é até grande. O último foi O Doutrinador (2018). Antes disso, tivemos Besouro (2009), O Vigilante Rodoviário(1978) e O Judoca (1973). Todos são filmes que transitam pelo universo dos super-heróis ou — ainda que estes não tenham poderes — dos heróis que lutam contra as injustiças. E há ainda o anárquico SuperOutro (1989), de Edgard Navarro. Esse, porém, não é um longa, mas um média-metragem que foi eleito para a lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos.

Todos esses filmes, por algum motivo, valem a pena. Contudo, Overman, de Tomás Portella, traz algo novo, um frescor para um subgênero cinematográfico com um número considerável de produções feitas no Brasil, ainda que esse não se constitua uma parte expressiva da nossa indústria. Esse aroma de novidade da produção está no fato de o filme conseguir conjugar simultaneamente ação, humor e crítica política. Está também no fato de não se desconectar da realidade em momento algum, retratando com fidelidade os quadrinhos da Laerte Coutinho. Dito isto, deixe a política um pouco de lado, pegue pela mão esquerda ou direita aquele seu amigo que não pensa igual a você e vá ao cinema assistir a esse filme. Especialmente porque ele é brasileiro e o nosso cinema merece. Eu super recomendo.

Desliguem os celulares e ótima diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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