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 Zona Zero mistura ação, terror e ficção científica

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Outro dia, eu tive um sonho. Sonhei que estava sentado em uma sala de cinema e, lá pelas tantas, o filme era interrompido. Não é que ele parasse de ser projetado na tela. Ele continuava sendo projetado, mas parava. As portas se abriam, pessoas entravam, se arrastando, correndo de forma claudicante, e eu demorava a entender que, na verdade, eram zumbis. Claro que era um sonho. Ainda bem que acordei um pouco antes de ser devorado por um deles. A particularidade desse sonho é que ele aconteceu logo depois de eu ter assistido a Zona Zero, novo longa-metragem sul-coreano de terror, dirigido por Yeon Sang-ho. Uma curiosidade em relação ao filme é que o diretor é o mesmo realizador de Invasão Zumbi (2016), que também fala sobre, como diz o título, zumbis.

Aliás, esse é um subgênero do terror muito cultuado. O principal expoente dele, historicamente falando, é George Romero, cineasta norte-americano que fez dezenas de filmes, alguns muito bons, outros nem tanto. O “nem tanto” é porque, quando uma coisa no cinema é exaustivamente explorada, como acontece com determinados gêneros, chega uma hora em que a impressão que a gente tem é que está vendo mais do mesmo, e as coisas começam a se repetir. E qual é a graça de ver mais do mesmo? Para isso, eu pego um clássico, um filme antigo de que adoro e revejo trocentas vezes. Faço isso, por exemplo, na seara do terror, com O Sexto Sentido (1999). Dez anos atrás, Invasão Zumbi me causou grande impacto. Lembro que coloquei o filme na minha lista dos dez melhores do ano. E aí me deparo com Zona Zero. A mesma pegada, a mesma vibração, a mesma energia, a mesma coisa tão elétrica, tão estimulante, tão tensa que me fez sonhar que estava dentro de um filme de zumbis, prestes a ser devorado por um. Mas há uma diferença que torna esta obra ainda melhor do que a anterior: a história.

Invasão Zumbi acontece basicamente dentro de um trem que está indo para a cidade de Busan, e toda a ação se desenvolve ali. Zona Zero acontece dentro de um prédio, sede de uma indústria de biotecnologia, durante uma conferência da área. Lá pelas tantas, um personagem injeta um vírus no CEO — o presidente da empresa —, que se transforma em zumbi. A partir dele, outras pessoas serão atacadas e também se transformarão. “Ah, Bruno, qual é a diferença? O que tem de novo nessa história?” Tem que Zona Zero trabalha com o conceito de inteligência e consciência coletiva. Se a gente pegar como exemplo as formigas, na biologia, veremos que elas se comunicam por meio de feromônios. É por isso que, quando você vê um grupo de formigas andando, elas fazem tudo a mesma coisa, seguem na mesma direção, tudo sincronizado, como se tivessem ensaiado exaustivamente. Não, não foi nada ensaiado. São formigas. Mas é que, na verdade, existe uma comunicação coletiva. Bem, o vírus desenvolvido no filme faz com que os zumbis se comuniquem coletivamente, sem palavras, obviamente, de forma inconsciente, digamos assim. Então, o que um zumbi vê aqui, o outro vê ali. E aí fica muito mais difícil fugir deles.

Dentro do plot dessa história, um grupo de pessoas fica ilhado, preso ali dentro do prédio, esperando o resgate. Só que o resgate demora a chegar, e eles vão ter que dar um jeito de tentar sair dali. E aí a história segue por caminhos maravilhosos. Não há nenhum ator muito conhecido do público ocidental no elenco de Zona Zero, mas essa é uma daquelas obras em que os nomes não são as coisas mais importantes. A atuação coletiva é muito boa. O pequeno grupo que tenta resistir conta com atores que trabalham muito bem. Todos entregam boas performances. Assim, não importa quem está ali, quem interpreta cada um daqueles papéis. O filme vale pela história, pelo mise-en-scène do diretor, pela ação ininterrupta e, claro, pela maquiagem. A maquiagem de Zona Zero é uma coisa fabulosa.

Não sei se a Coreia do Sul vai escolher Zona Zero para o Oscar, nem se a história é atrativa o suficiente para disputar a estatueta de melhor filme internacional. Mas, caso estreie dentro do prazo da Academia, o filme pode facilmente almejar uma indicação em maquiagem, em efeitos e talvez em direção. Porque, se o elenco não tem nomes de destaque ou que chamem a atenção do público, a grande estrela da companhia aqui é o cineasta Yeon Sang-ho, que, com dez anos de diferença, entrega dois ótimos filmes de um subgênero cinematográfico consagrado por George Romero. Se eu recomendo? É claro que sim! Só cuidado para não sonhar depois com uma invasão zumbi.

Desliguem os celulares e excelente diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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